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No meu Palato

No meu Palato

Novas Colheitas Poças | Quiçá viver além uma Quimera

"A maioria das artes exige longo estudo e aplicação, porém, a mais bela de todas, a simpatia, apenas exige vontade."  Philip Chesterfield

Poças

A Quimera é uma figura mitológica resultante da mistura de dois ou mais animais e com a capacidade de lançar fogo pelas narinas. Oriunda da Anatólia (Turquia), este monstro fantástico é filha de dois outros monstros ferozes: Equidna, metade serpente e metade mulher, e Tifão, o maior e mais temível monstro das lendas gregas.

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Que é que isto tem a ver com os novos vinhos apresentados pela Poças? Tudo :P Mas não queimemos etapas, voltaremos aos monstros gregos um pouco mais à frente. 

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 Tive a oportunidade e o prazer de estar presente na apresentação das novas colheitas da Poças, cuja  epítome seria o lançamento de um topo de gama branco, em ano do centenário (um pouco como aconteceu com o Símbolo, nos tintos). Produzido a partir de uvas de solos graníticos, o novo Poças Branco da Ribeira 2017 enaltece a diversidade do terroir do Douro e é uma homenagem à tenacidade da região.

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A prova/apresentação iniciou com o Coroa d'Ouro branco 2017. Um excelente entrada de gama, produzido a partir das castas Malvasia Fina, Códega, Rabigato, Viosinho e Moscatel. Apresenta-se amarelo palha, carregado de frescura, alguma fruta (realçada pelo Moscatel) e irreverencia. 

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O irmão, mais velho e tinto, o Coroa d'Ouro tinto 2016, possui uma alma muito própria com frutos silvestres, amoras, esteva, violetas e alguma salinidade. Produzido a partir Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz eTinta Barroca é denso, intenso e elegante. 

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O foco virou-se para o Vale de Cavalos branco 2017. Um "reserva" branco, complexo, cheio e volumoso. As castas Códega, Rabigato, Gouveio e Viosinho foram colhidas nas zonas mais elevadas do Douro Superior para lhe assegurarem frescura. Pincelaram-no ainda com flor de laranjeira, acácia, pêssego, melão e loureiro. A madeira, quer no nariz, quer no palato, acrescenta-lhe complexidade, comprimento e dimensão. 

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O homónimo tinto, tal como o branco, é limpo, bastante expressivo aromáticamente, elegante e fresco. Para além disso, com Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca  o Vale de Cavalos tinto 2016 carrega muita fruta vermelha, cedro e notas florais. O ligeiro contacto com a madeira temperou todos estes aromas, fazendo com que a sua complexidade, coerência e estrutura fossem optimizados. 

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Mais tarde, um dos momentos altos do dia, o Poças Branco da Ribeira 2017. Um branco feito com pinças e com todas as mordomias:  um controlo apertado de maturações, várias vindimas, selecção de uvas, prensagem suave numa titan, decantação a 4ºC durante cerca de 10 dias, fermentação numa cave com temperatura controlada a 15ºC em barricas novas de carvalho francês e estágio com batonnage por dez meses.

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 O resultado deste "andar com o vinho ao colo" é um néctar com volume, untuosidade, espessura e uma acidez muito viva. É dos brancos novos mais elegantes que provei. A frescura muito particular, a ligeira mineralidade e as notas nobres a citrinos, baunilha e especiarias tornam-no complexo, subtil e equilibrado. 

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 A cask sample do Poças Porto 10 anos Branco trouxe um vinho leve, fresco, equilibrado, com vida, alegria e uma excelente acidez. Muito diferente dos seus "concorrentes directos" porque a sua fruta, entre damascos e tangerina e notas a casca de limão, caramelo e mel não ficam ofuscados e sobrecarregados pela madeira, permitindo desta forma uma prova subtil, elegante e muito fresco. 

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 Das caves da Poças surgiu o último vinho, e muito provavelmente, aquele que por motivos subjectivos, se tornou objectivamente no meu vinho preferido desta apresentação: o Poças Porto Vintage 2016. Traja um rubi profundamente misterioso, com intensa expressão aromática e corpo equilibrado, a mostrar a excelência do ano 2016 para a produção de Vinho do Porto, ano em que vários produtores declararam ano Vintage, a mais valorizada distinção dada a uma colheita.

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 Os taninos não marcam demasiado e também por isso já dá um enorme prazer na prova. No nariz ainda está um pouco fechado mas tem todas as premissas que o irão fazer crescer (e muito) em garrafa. Delicadeza, frescura e brisas florais, em que a tradicional fruta em compota sofreu uma metamorfose para fruta do bosque. Poças

Surgem ainda notas de ameixa, framboesa, cedro e jasmim. Tem a elgância que 2015 não teve, é requintado, é elegante, a adstringência quase que desapareceu e o vigor parece contido. É um gigante ... simpático.

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E a simpatia é mesmo uma característica de 2016, ano em que nasceu a minha princesa. Este Poças foi o primeiro vintage de 2016 que provei (entretanto já provei mais alguns) e essa feliz coincidência acrescentou a tal subjectividade nas minhas notas objectivas, fazendo-me pensar numa Quimera.

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Porque a Quimera não é apenas um monstro, é também uma metáfora  de uma esperança ou sonho que não é possível alcançar, uma utopia. Por derivação de sentido, esta palavra, significa também o resultado da imaginação, um sonho ou fantasia.

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  Por isso podemos dizer que produzir brancos de qualidade suprema no Douro em anos díficeis ou então vintages mais simpáticos, mais prontos a beber, mas sem sacrificar longevidade será ... quiçá viver além uma Quimera. No entanto a Poças com o Branco da Ribeira 2017 e o Porto Vintage 2016 mostrou que não é preciso lançarem fogo pelo nariz ou arrancarem as pernas e braços de Zeus para o conseguirem, basta longo estudo, aplicação e uma boa dose de simpatia, daquela que nasce connosco, parabéns ;)

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